AS CAVIDADES DO VEIGA (Parte I) Virgílio Liquito

«Publicou alguns livros em prosa. Participou em revistas (Última Geração e Pé de Cabra), então sediadas no Porto. Colaborou com poemas nos eventos de Versos Soltos, em Espinho. Participou em Filo-Cafés em Portugal e Galiza. Colaborou na Porta Verde e regularmente no Círculo Poético Aberto, cujos eventos têm sido lavrados no café Uf em Vigo, Galiza.» (Revista Elipse, Núm. 4)

Regressava de noite a casa, absorto, depois de mais um dia de rotina pelos subúrbios do seu bairro. Um certo cansaço indicava-lhe que a sua existência se sumira mais um pouco. Mas não se importava. Queria só dar corpo ao seu desejo, de se espalmar na cama; era aquela convicção de que enquanto dormiria, os seus tomates encontrariam no leito um repouso positivo, bastante acolhedor.

A atmosfera parecia-lhe quente ao penetrar-lhe nas articulações da língua. Mas a ânsia de percorrer os largos metros até ao repouso, fazia-o secundar esse pormenor. Interessava-lhe mais acabar depressa com o dia, para que na manhã seguinte, já bem robusto como um tronco de árvore, pudesse reiniciar com mais ardor, com mais gana, as suas deambulações farmacêuticas pelos lugares que mais o faziam sumir da Terra. Por isso, nem reparara que a taberna do Semeão já estava cerrada, que os gatos pareciam ter electricidade nos entrefolhos ao atravessarem diagonalmente a calçada enquanto faziam esgares terríficos, que lhes partiam os próprios pêlos do bigode… Que até os latões do lixo e de lavagem abanavam como centeio, fustigados por vento. Efectivamente Veiga estava afastado desses pormenores aparentemente escoados de conteúdo.

Ele subia maquinalmente a calçada como um frustado sem padrões de optimismo que lhe levantassem as rugas da testa, embora conseguisse içar apenas as calças pelos bolsos, gesto que lhe permitia apanhar o ar aquecido nos tornozelos, e sentir as costuras das mesmas no rego do cu.

Era tal a absorção de Veiga do meio ambiente, que foi preciso que a tia Alzira, que costumava andar ao papel e que descia nessa altura a calçada, lhe desse dois estalos nas ventas chamando-o à realidade. Isto porque Veiga não conseguia ouvir as aflições dessa velha que se fartava de lhe dirigir esconjuros em sílabas porcas, as quais não tivera a ousadia de as remeter a um magote de cães irritados no alto da calçada, que lhe haviam rasgado o seu saco do papel. Claro que a velha foi a culpada, embora quisesse dar a entender ao Veiga o contrário. Ela bem sabia que tinha pontapeado um focinho, o mais ranhoso entre muitos, depois de os ter incomodado, rasgando o caminho entre eles agitando o saco dos seus ganhos.

…Com estas coisas, que não lhe diziam respeito, para além dos seu particulares desencontros com a realidade em geral, mesmo assim Veiga iria levar uma “sapatada” na condução da sua existência…

Ouviu então o silvar dos gestos dessa carne anosa “alimentada” de papel, verificando que daqueles lábios rugosos e rijos brotava a raiva da solidão. E sentindo-a, logo se agarrou à velha, pensando sensibilidades desonestas; beijou-a longamente nesses lábios irrequietos com tal sofreguidão, que a arrumou de cangalhas pelos paralelos da calçada. Só aí é que Veiga deu conta que ela carregava às costas o tal saco do papel, mas com um cão silencioso pendurado pela dentuça, compreendendo por fim que os propósitos da velha “eram” mais de angústia e bem diferentes dos que lhe caíam do desejo. E assim, arrependido, tentou levantá-la, carinhosamente. Porém, para seu espanto, logo se viu rasteirado de costas para a rua, caindo à vontade, acompanhado por grandioso estrondo de dor. Num ápice tentou levantar-se e eis que se sentiu esmagado pela velha que dum salto de malaquias o fez aninhar como um asno de carga. Daí para a frente ele e a velha coçaram-se indiscriminadamente num sem-fim de arrotos amorosos, banhados em orgasmos prismáticos recalcados . Rebolaram-se assim pelo chão, durante uns ciosos – minutos, enquanto que a tringalha do Veiga lograva encontrar a região capilosa da velha bem repleta de remela e cristais de mijo. Tudo corria bem, até que a velha, nomeadamente enojada com a cena, bem consciente do que iria fazer, ousadamente agarrou no cão também envolvido na balbúrdia e colocou-o à entrada da boca do Veiga, no preciso instante em que ele lhe tentava colar outra vez os lábios nos seus profundos dentes podres e sentinais que ao homem lhe iluminavam os olhos. E logo se deu o tal “chôcho” mucoso, repercutindo um estalido forte nas trevas da calçada, o qual permitiu ao Veiga saborear ainda alguns restos de ossos e entulho soltos pelo desequilíbrio psíquico do animal. Contudo, rapidamente tudo se desfez no que se circunscreve acerca dessa aberrante confusão. O cão recolheu aos guinchos para junto da matilha, ainda atordoado com a cena; a velha retomou a descida resmungando, sem deixar de largar um fio de mijo no seu rasto; e Veiga reiniciou a penosa subida, mas novamente absorto, embora mais decidido a esgadanhar os lençóis da cama.

Foi então que Veiga, ainda dorido nos beiços, de repente se sentiu abalroado por um latão disparado do meio daquela colónia canina, sendo depois atirado por súbitas rajadas de vento ao encontro de um gato aninhado na berma do passeio, enquanto que o latão continuava tamborilando-se pela pedraria da calçada abaixo. Veiga apenas perdeu uns leves segundos em jeitos de consciência. Foi logo ferrado no cu pelo bicho, que o fez desequilibrar novamente, e desta vez acabou por rolar por ali abaixo estagnando a sua marcha num manhoso buraco da calçada. E aí mesmo o seu regresso a casa iria sofrer profunda alteração. É que ele deu por si entalado pela cabeça nessa cavidade com o corpo ao alto, sentindo-se injustamente como uma penca perdida na profundidade da noite atravessada pelos inquietos latidos de canídeos.

Efectivamente era essa a posição estática do Veiga, espetado na calçada. E logo reagiu, fazendo ecoar um profundo e estridente grito de desespero pelas paredes irregulares do buraco, dando aí toda a sua potência fonética, porém cuidadosa, para não confundir quem eventualmente por ali passasse e o quisesse compreender; mas o esgar foi de tal aflição, que este em lugar de lhe sair pelas goelas fora, se lhe entrou pelo esófago adentro trazendo consigo colónias e colónias de minhocas longitudinais, lesmas e outros detritos por ali encrostados. E então facilmente concluiu que era melhor aguardar.

Estava cansado. A cena com o gato e tudo o mais que lhe acontecera, quase lhe passavam indiferentes. Doía-lhe mais a carcaça óssea da cabeça do que as sentidas e malditas dentadas do felino. E o latão, que o amolgara um pouco nas costelas, não justificava por si só qualquer pressuposto de dor. Até porque a sua dor, a usual, era bem mais uma arreliação à “flor da pele”, do que qualquer ousado sentimento profundo que o fizesse inquietar com gestos assimétricos de desespero. Por isso mesmo deixou-se ali ficar no seu misantropismo guloso, bem seguro no pavimento, contudo abrindo airosamente um pouco as pernas para que os seus testículos se sentissem acomodadamente desafogados.

Como tal, tudo lhe era diferente nessa noite. Mesmo que lhe fosse fácil sair da cavidade, nada impediria que os caninos não tivessem descido a rua, e lapidado o gato que lhe dentara no “proio” e tivessem galgado de novo a calçada para no alto se apearem, concentrando-se com mais rigor, com mais inquietude, na espreita da noite. E obviamente Veiga não sentia essa agitação que rosnava em uníssono, o paulatino aumento das rajadas de vento, o roncar sepulcral da noite, a tempestade que se avizinhava… Sentia sim no crânio preso ao buraco, as incontáveis patas caninas pinchando de desespero no pavimento seu carrasco… Contudo, já não aguentava as fumaradas gelatinosas que brotavam dos boieiros, chegadas a si pelas frinchas dos paralelos: a imobilidade das casas da calçada; o ar quente que lhe provocava ardência no ânus; até mesmo os pressupostos acutilantes que os cães exalavam pelos dentes raivosos. Veiga estava mesmo persuadido que, se mais algum gato passasse por ali ou algum osso fosse atirado para a rua, a sua situação de equilíbrio iria degradar-se consideravelmente. Ele tinha a certeza que a escuridão expressa em todas as redondezas, coadjuvada por infantis pedras atiradas aos candeeiros partidos por um lado e por outro, o negrume balofo da noite que lhe entrava pelas frinchas tangentes aos seus olhos, carregava uma indecifrável ameaça de um momento para o outro. Além de tudo isso, porém, ele não constatara que nuvens refractárias sobrevoavam o espaço, deixando atrás de si grandes manchas de escuridão, quase plastificadas, envolvendo nos seus intestinos gasosos as múltiplas telhas das casas da calçada.

Quase se diria que era uma noite propícia a confusas interpretações no confronto de qualquer fenómeno, que eventualmente fluísse no seio conflituoso e perene da calçada. O Inverno acabara de se apagar nos materiais intácteis da natureza. Como tal, sentia-se a despropósito toda essa pressuposta calamidade, a qual ia ganhando corpo nas entrelinhas do vento já tenebroso que fustigava a calçada, tal aragem quente se esfacelava masoquistamente nos contornos das casas, e que levantava sem preconceitos os musgos e estercos encastrados nas paredes fleumáticas abandonadas à dualidade dos tempos.

Efectivamente, quilos e quilos de massas de água suspensa aguardavam oportunidade para bombardearem a sitiada calçada, já que o namoro com o vento estava em vias de conclusão.

Como era evidente, Veiga não acompanhava este evoluir do mau tempo que se elaborava por cima das solas dos seus sapatos. Embora, naturalmente, caso não fosse a sua presente situação, fugisse a ele com todas as aflições e fobias em celeridade mais ou menos conveniente. É que Veiga era assim: o vício que ele tinha de andar tão depressa, confundia de tal maneira os seus vizinhos da calçada que, sempre que ele passava para baixo ou para cima na íngreme rua, com tal pressa, os ditos vizinhos nunca chegavam a saber se ele a subia ou a descia. Embora reconhecessem que ele tinha tremenda necessidade em o fazer, porque sabiam que a sua careca (restava-lhe apenas um cabelo teso que lhe dava a sombra capaz e real para o equilíbrio harmónico entre as variadas temperaturas que lhe assediavam a tola, mesmo quando os pressupostos de razão emocional lhe criavam um clima temperado e húmido no exposto prolongamento da cara) largava carradas múltiplas de caspa seca, inundando à passagem o pavimento da calçada. Então bastava-lhes olhar para o chão, verificando esse fenómeno, para logo o limparem antes de Veiga novamente passar. E também reconheciam que ele era um presunçoso, por que nunca o ouviram a lamentar-se publicamente da sua exemplar profissão: carregar num gigo à cabeça paralíticos e decepados até às finanças da localidade, para estes pagarem aí, o imposto especial, que lhes permitia circular à vontade pelas suas redondezas.

 

Continuará…

2 reflexións sobre “AS CAVIDADES DO VEIGA (Parte I) Virgílio Liquito

Deixa unha resposta

O teu enderezo electrónico non se publicará Os campos obrigatorios están marcados con *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.